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A pandemia e a reconquista da familiaridade

Por Daniele Rodrigues Jordão

Com a pandemia, nos vimos privados de algo extremamente importante, que fica evidente a cada novo passo que damos no sentido de uma flexibilização das restrições impostas pela crise: uma certa familiaridade com a vida e nossos modos de ser.

O contexto de isolamento nos impôs uma série de limitações que foram se consolidando no nosso dia a dia, de forma que nossos modos de ser e estar no mundo, bem conhecidos por nós e construídos pelas sutilezas de uma rotina dotada de um mínimo de previsibilidade, precisaram se reconfigurar diante de uma ameaça de adoecimento coletiva.

Uma constante necessidade de adaptação atravessada pelo medo e incertezas em relação ao futuro vai repercutindo no nosso cotidiano após mais de um ano e meio de pandemia, resultando em exaustão, falta de foco, vivência não familiar do tempo e espaço e um estado de hipervigilância.

Atualmente, nos deparamos com um cenário distinto, já que com o avanço da campanha de vacinação, algumas possibilidades voltam a se abrir: os encontros em pequenos grupos, a perspectiva de voltar a circular nos espaços, a retomada de alguns esquemas de trabalho e um retorno ao que chamamos comumente de “normalidade”. Entretanto, falar sobre retorno não é falar de uma transposição simplista para o modelo de vida que vivíamos antes, uma vez que isso seria negar toda a transformação suscitada pela vivência de uma crise.

A pandemia se apresenta como uma marca em nossa história, e atravessar o luto pelas perdas coletivas, lidando com as repercussões das adaptações necessárias implica em um desconhecimento de si mesmo, que nos direciona para um descobrimento de nossos modos de ser após a experiência. A tarefa que se desdobra para nós, então, não soa como uma tarefa de retorno, mas sim uma tarefa de reconhecimento.

Nesse sentido, é possível pensar em uma reconquista da familiaridade com o mundo após um período de estranheza diante de uma imprevisibilidade sempre presente, porém intensificada pela ruptura expressa na pandemia. Nesse processo de tornar o mundo familiar, é importante atentar para o respeito aos nossos limites. A percepção das próprias possibilidades, bem como das possibilidades do outro, é fundamental para que essa reconquista da familiaridade seja acolhedora e cuidadosa consigo e com o outro.

Imagem: Daniele Rodrigues Jordão

Daniele Rodrigues Jordão

Psicóloga Clínica. Atendimentos no Espaço Clínico Mari Figueiredo

CRP 06/134464

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